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Tuesday, April 2, 2013

A última vitória de Merzario no Mundial

Nos anos 70, Arturo Merzario foi o grande vencedor de corridas da Alfa-Romeo, entre 1974 e 1977. Ganhou uma corrida em 1974, cinco em 1975 (contando a Targa Florio, não válida para o campeonato, em dupla com Nino Vacarella) e mais cinco corridas em 1977. Ou seja, ao todo, onze vitórias.

Em 1977, a Alfa Romeo disputava o fraco Campeonato Mundial de Carros Esporte, reservado para carros do Grupo 6. Com oito provas, a Alfa não teve muitos problemas para ganhar todas, até porque nem a Porsche, nem a Alpine-Renault participaram do campeonato. Um ou outro carro de três litros participou das corridas, como o Toj-Cosworth, uma ou outra Lola-Cosworth e raros Porsche 908-3. A maioria da concorrência era composta de carros de 2 litros ou menos - de fato, até protótipos de 1,3 litros participaram das corridas.

A grande disputa ocorreu dentro da própria Alfa-Romeo. Inicialmente, a Autodelta pretendia usar duplas, incluindo os pilotos da Brabham=Alfa Romeo. Nos planos da Alfa estavam o brasileiro José Carlos Pace, que morreu antes do início do campeonato e John Watson, que não gostou das barchettas. Jean Pierre Jarier acabou fazendo dupla com Arturo Merzario em algumas corridas, sem contar Giorgio Francia com Spartaco Dini, quando a Alfa alinhou três carros. Os dois "solistas" eram Arturo Merzario e Vittorio Brambilla.

Brambilla fora contratado pela Autodelta por sugestão de Merzario, em 1974, e correu em dupla com Arturo no Mundial de Carros Esporte, esporadicamente em 1975 e 1976. Em 1977, os dois italianos acabaram se tornando ferozes rivais na pista, quase inimigos.

Acostumado com o status de número 1 e de piloto mais rápido da Alfa, Arturo não engoliu direito a velocidade de Vittorio. Assim como na F1, Brambilla era um piloto rápido, porém, estabanado e sim um estilo polido. E em 1977 azucrinou a paciência de Arturo.

Arturo tinha um contrato com a Alfa até 1978, que acabou não sendo cumprido, pois a Alfa acabou abandonando os carros esporte depois do campeonato de 1977. Este acabou sendo o Arturo-Vittorio show, e o auge do espetáculo se deu nos 500 km de Paul Ricard de 1977, a sexta corrida do fraco campeonato.

Já na corrida anterior, em Estoril, Arturo liderava a maior parte da prova que contou com oito carros (3 deles Alfas) quando Vittorio procurou aquecer as coisas, eventualmente ultrapassando Merzario. Os boxes ficaram em rebuliço, com muitos braços acenando, e uma grande gritaria, pedindo a Vittorio que deixasse Arturo passá-lo. Quase no final da prova, Vittorio cumpriu com as ordens da fábrica. Nos 500 km de Castellet, não havia ordens, os dois podiam se esfolar na pista. Na corrida, Arturo faria dupla com Jarier, Brambilla correria sozinho.

Para evitar o vexame do evento no Estoril - a única corrida de Mundial de Carros Esporte realizada em Portugal - os organizadores da corrida francesa pediram à FIA que permitisse a inscrição de carros do Grupo 5 e Grupo 4. E assim  foi feito, embora os carros dessa categoria não fossem de equipes de primeira como a Martini-Porsche, Kremer, Gelo ou Max Moritz, e sim do Jolly Club, etc. Porém, o grid estava relativamente cheio.

As duas Alfas marcaram o melhor tempo, porém, a la Jody Scheckter em Silverstone, 1973, Vittorio Brambilla parecia querer ganhar a corrida de 500 km na primeira volta. Resultado, entrou muito quente numa curva, derrapou na frente de Merzario, que foi forçado a sair da pista, avariando sua Alfa. Merzario voltou as boxes com o carro capengando. Saiu do cockpit furioso, gesticulando acima do normal, e questionando a saúde mental do Gorilla de Monza. Chegou a dizer que processaria Vittorio. Arturo insistia que o carro quebrara, vestiu-se e foi embora para o aeroporto.

Entretanto, Jarier tinha outras ideias, o carro pegou, e o francês voltou à prova. Vittorio acabou aprontando novamente, abandonou a corrida que era sua, e o caminho ficou livre para Jarier; O Toj de Jorg Obermoser e Pierre-François Rousselot nada pode fazer.


AAlfa-Romeo com patrocínio da Fernet Tonic em 1977

Assim, a última vitória de Merzario no Mundial foi anti-climática, pois só veio saber que ganhou a corrida ao chegar na Itália. O que não aliviou sua fúria contra o conterrâneo.

Brambilla ganharia as duas últimas corridas do campeonato, inclusive Salzburgring, onde Merzario estreava a Alfa com motor turbo. Com esse mesmo carro, Merzario ganhou uma corrida da Interserie, em Hockenhein, sua última vitória com a equipe de Milano, e a única da Alfa esporte com motor turbo.

Carlos de Paula é tradutor, escritor e historiador de automobilismo baseado em Miami 

Friday, February 8, 2013

Luigi Salva o ETC


Há alguns dias atrás escrevi sobre o maravilhoso campeonato Europeu de Turismo de 1973, e como em 1975 o campeonato já estava em frangalhos e plena decadência. As equipes de fábrica simplesmente desapareceram, os pilotos conhecidos também, mas para salvar a coisa, o preparador Luigi Cimarosti, belga de origem italiana, abrilhantou o ETC de 1976 com seus BMW 3.0 CSL.
Os pilotos do carro principal eram Jean Xhenceval (que sobrenome bonito, cá entre nós) e Pierre Dieudonné, este último um dos concorrentes do Alex Dias Ribeiro na F3. O par ganhou cinco corridas (em Brno Umberto Grano os ajudou) e levaram o campeonato. O aristocrata e também belga Hughes de Fierlandt participou de duas vitórias de Xhenceval e Dieudonné, e ganhou uma outra prova com Patrick Neve, e uma quarta com Claude de Wael e Gunnar Nilsson. Foi uma festa belga, pois só o sueco Nilsson não era belga nesse pessoal todo.
Infelizmente, a equipe perdeu a mais importante corrida do ano, as 24 Horas de SPA realizadas justamente na Bélgica, corrida ganha pelos também belgas Jean-Marie Detrin, Nico Demuth e "Chavan".
Houve duas boas novidades no ano que indicavam uma luz no fundo do túnel. A primeira foi o fato da Alfa-Romeo finalmente ter achado um bom substituto para a sua linha GTA-GTAM, que ganhou muitas corridas até 1970 - a bem preparada Alfetta GT 2.0. O principal piloto da Alfa foi Amerigo Bigliazzi, que chegou em quarto no campeonato, e de fato, ganhou a prova de Vallelunga com Spartaco Dini, a primeira vitória da Alfa na geral desde 1970. Em SPA, a Alfa chegou em segundo, terceiro, quarto e sexto(Andruet-Dini, Imbert-Beguin, Ballot-Lena-Frequelin e Bigliazzi-Zeccoli-Crespin).
A chegada da Jaguar também prometia bastante. Em Silverstone, Derek Bell e David Hobbs fizeram uma boa corrida, com Bell marcando a pole e melhor volta. Entretanto, o carro não durou muito. Além do Jaguar de 5,3 litros, a British Leyland também usou um Triumph Dolomite, pilotado por Brian Muir e Andy Rouse. Infelizmente, essa volta da Jaguar não deu muito certo, e no ano seguinte, reforçada por Tim Schenken e John Fiztpatrick, além de Bell e Rouse, o máximo que a Jaguar conseguiu foi um segundo lugar.



O ETC continuou sendo domínio do fabuloso BMW 3.0 CSL, embora no ano seguinte Xhenceval-Dieudonne tenham relegado a sua coroa a Dieter Quester. O longevo Quester, diga-se de passagem, foi o único piloto a ganhar este campeonato em três décadas diferentes (nos anos 60, 70 e 80), e com quase setentão nas costas ainda faz suas corridinhas por aí.